terça-feira, 1 de maio de 2012

Dioniso e a poética estrada de ilusões ...












Os gregos antigos, segundo Nietzsche, foram os primeiros a reconhecer que a sobrevivência humana depende do mito e da poesia . Face ao absurdo da existência, à multiplicação exponencial do sofrimento e da necessidade, diante da consciência da aniquilação iminente, era preciso aos mortais um tempo, projetado adiante, que compreendesse o passado, o presente e o futuro, no qual a eternidade assegurasse de algum modo os sentidos possíveis da existência. A idéia é que os poetas, ouvindo a voz das musas que ressoava no seu interior, eram seres capazes de decifrá-los. Os mitos, que cercavam o mundo dos deuses e heróis, constituíam assim formas de organizar e compreender o universo, maneiras de encaminhar as questões humanas de sempre, respondidas através de histórias cujo sentido, sempre aberto, podia ser interpretado de diferentes maneiras e em diversos níveis de profundidade. E como o universo, para eles, encerrava mistérios que ultrapassavam a capacidade humana de entendimento, os atalhos do absurdo sagrado não podiam ser percorridos por meio da razão, apenas pela poesia. Esse aspecto indecifrável do cosmos é representado pelo deus Dioniso.

Ignorantes do futuro e submersos no presente, temos até hoje que adivinhar indícios de sentido nas entranhas do passado. Hoje, talvez, não podemos fazer uma idéia completa de Dioniso, temos só um Dioniso despedaçado, como diz Nietzsche, porque o passado só nos chega aos fragmentos. Vernant chama atenção para a característica polútropos de Dioniso, termo grego que pode ser traduzido como “multifacetado”. Trata-se de um deus estranho, contraditório – os gregos acreditavam que ele fosse a essência da alteridade.

Dioniso era um deus ímpar, em nada parecido com outros deuses, e não é por acaso que Jean Pierre Vernant o chama de o deus do outro. No mundo grego, onde as divindades se movimentavam dentro de certa ordem que compunha o cosmos, existia um deus, que não era certamente o deus da desordem ou do caos, mas um deus do outro lugar. O culto de Dioniso, vindo da Frigia, através da Trácia, a partir do século VIII a.C., se alastrou como uma epidemia pelas cidades gregas, apesar da forte oposição da aristocracia. Mesmo em épocas mais próximas de nós, no tempo helenístico, as estradas que procediam de Atenas continuavam a ser percorridas pelo thíasos, cortejo de mulheres atenienses que a pé, sob a neve, (pois Dioniso é um deus invernal) em delírio extático, dirigiam-se ao templo de Dioniso em Delfos, a própria sede do culto de Apolo.

Era um deus que nascera da união de Zeus com uma mortal e que – à semelhança do Deus cristão – caminhava no meio dos homens, dividindo-os entre os que rejeitavam seu caráter sobrenatural e aqueles que se a ele se convertiam imediatamente. Dioniso separava os homens das mulheres - sua divindade se fazia entender pela música; e muitas vezes apenas os seres marginais da sociedade grega, estrangeiros, escravos e mulheres eram capazes de entendê-la. Fato compreensível – como hoje, para muitas pessoas do mundo antigo a música constituiu a única coisa capaz de tornar o cotidiano suportável.

As bacantes eram assim sempre mulheres. Os homens gregos da época, que buscavam saber o que as mulheres faziam nos cultos dionisíacos no meio das florestas, conforme se lê em As Bacantes, de Eurípides, supunham que elas iam se entregar a “bacanais”, a rituais ligados à sexualidade. Contudo, essa era a interpretação masculina. Isto é, os homens gregos não podiam conceber que as mulheres pudessem ter acesso à transcendência e ao contato direto com o divino; o êxtase feminino era reduzido ao orgasmo. Significativamente, para os gregos, seguir Dioniso era ser tomado pelo entusiasmo, isto é, ser habitado pelo deus, ter o “deus dentro de si”. E, para os gregos, que cultuavam valores apolíneos da justa medida, do equilíbrio, do conhecimento de si e do autodomínio, esse tipo de entusiasmo era considerado uma espécie de loucura.

Decerto, havia no Olimpo outras formas de conceber a loucura – o deus Ares, por exemplo, exprimia a demência da brutalidade e da estupidez da guerra, a insânia que se apossa do guerreiro induzindo-o ao massacre e à crueldade. Afrodite, ao lado daquilo que há de luminoso no amor, manifestava também um lado obscuro: o ódio provocado pelo amor não correspondido, o ciúmes assassino, o desatino da paixão cega.

Em contrapartida, no delírio religioso dionisíaco, a loucura assumia outra forma. Ao contrário dos outros deuses, aos quais os gregos prestavam piedade ritual, fazendo libações e sacrifícios, indo em procissões até seus templos, em dias regulares do ano, Dionísio cavalgava seus fiéis, habitava a pessoa, levava ao transe, à dança e à alegria. Era um deus errante, irrequieto, vagabundo, que chegava sem avisar, que não tinha destino certo e nem hora de partir. Num certo sentido, representava um pharmakós – ao mesmo tempo representava a loucura e ensinava a curá-la. Tanto era capaz de enlouquecer seus inimigos, como indicava aos seus seguidores a forma de saná-la - aceitando-a, transformando a loucura num grau mais elevado de lucidez, através da arte.

É nesse sentido que Vernant sublinha a existência de traços da mitologia hindu na legenda de Dioniso – segundo um de seus mitos, Dioniso teria habitado a Índia. Pois Dioniso representa a idéia de “maya” no duplo sentido de ser véu de ilusão que recobre a realidade, como no sentido de “maya” significar o acesso a uma outra realidade, mais verdadeira do que essa, que demonstra ser a realidade compartilhada entre os homens uma forma refinada de ilusão.

Trata-se então de um deus alucinatório. As bacantes, no seu êxtase, vivem num mundo feito de felicidade, de bem-aventurança, onde os animais selvagens se reconciliam com os homens; onde o leite, o vinho e o mel jorram da terra, mundo que oscila entre imaginação e realidade. A palavra “mênades”, nome dado às sacerdotisas de Dioniso, remete à palavra “mania” - possuídas pelo deus, o seu delírio, no mais das vezes pacífico, podia, no entanto, se tornar sanguinário. Dioniso é também um deus selvagem e vingativo, as bacantes trucidam seus inimigos, despedaçando-os.

Mas Dioniso é um deus que, simultaneamente, cura a loucura do mundo mediante seu lado civilizador, pois é o deus que patrocina o banquete e preside o teatro. É ele quem arrebata os homens da vida cotidiana, que conduz à festa, que lhes ensina a ir além do tédio e do bom senso. No banquete, produz o kômos, porque é o deus do vinho. O kômos, o cortejo de mascarados que se segue ao banquete, é também um estado da alma proporcionado pelo vinho; não exatamente a embriaguez, mas um estado de espírito, um tanto exaltado, que facilita o convívio, desata a palavra, anima a conversa e reúne os homens. Esse estado de espírito é que permite ver o que permanece ao lado, fazendo com que o real ganhe um aspecto do não familiar, que se aperceba do inusitado, daquilo que é entrevisto, daquilo que permanece à margem de nossa percepção cotidiana.

É o deus da invenção do teatro, o criador da mímesis, da ilusão do teatro, da outra realidade que constitui a cena teatral. Simboliza, no teatro, a relação dos homens com o movimento, pois sua possessão compele à música, à dança, à pantomima, à criação da realidade cênica, espaço concomitantemente sagrado e político. Dioniso impele à transformação, conduz aos impasses, à obscuridade da mutação do sujeito, à dimensão misteriosa do existir.





Fonte: www.paideuma.net/textomariacecilia.doc

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